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no souvenir

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Outono

É sempre a mesma coisa. Mudam as estações, muda o guarda-roupa e temos a tarefa chata de arrumar as vestimentas. Hoje comecei a guardar religiosamente os meus vestidos de verão, como se ali em cada vinco e dobra pudesse guardar um bocadinho também dos dias longos e claros, de pernas e braços ao léu. Lá fora, começava a chover. Daqui a uns dias muda a hora e eu faço anos. Agora sim, bem-vindo senhor Outono, adeus menino Verão.

As palavras querem tempo

Os dias vão passando e elas aguentam. Entre tarefas, teclas e cliques, elas esperam aqui dentro. Vão brotando e querem sair, mas não podem. A semana está quase no fim e vais ganhando aquela angústia miudinha de quem não consegue deitar cá para fora as palavras que nascem dentro de ti.

 

Estas palavras que guardo comigo são egoístas. Não querem ser divididas com as outras tantas palavras que já estão cá fora e que passam pelos meus olhos, sempre apressadas. Querem estrear um bloco novo ou sentir calma nos dedos, quer seja a segurar numa caneta ou a escrever no computador. São palavras valiosas que não se podem perder no correr do relógio, nem nos automatismos de um teclado. Querem perdurar.

 

Querem aproveitar a claridade da manhã, entre goles de café e pausas para pensar. Precisam de horas inteiras dedicadas só para elas e não uns minutinhos livres, entre isto ou aquilo. No fim do dia, com a cabeça e os olhos cansados, as palavras perdem a força e, como que adormecidas, desistem de sair, só se mostrando outra vez naquele momento em que estamos quase a entrar no sono profundo. Outro dia começa e a angústia das palavras presas aumenta mais um bocadinho.

 

Estas palavras que levas contigo precisam de tempo para sair e tempo é algo que tu não tens.

Pés de lã

Para os meus gatos

 

Os gatos têm pés de lã. De pantufas invisíveis, os gatos entram sem pedir licença, alguns mais dóceis, outros mais ariscos. Os gatos, com a sua arrogância natural de quem tem sete vidas e cai sempre de pé, caminham sem fazer barulho. O chão para eles é como nuvens, sempre suave ao seu andar silencioso.

 

Os gatos têm pés de lã. Não gostam de dormir durante a noite, preferem vaguear à sombra da lua, a procurar brigas de rua. Voltam cansados e mal dispostos, com o focinho arranhado, de vez em quando. Esgueiram-se pela porta mal fechada e procuram o conforto do sofá para o sono merecido. Que também pode ser no chão do pátio, naquela nesga de sol, ou num canto da garagem, em cima de uma mochila esquecida. A cama é onde se deitam. Dormem, sempre, profundamente, até serem acordados por ruído ou voz.

 

Os gatos têm pés de lã que escondem unhas afiadas. Tudo serve para afiar as garras, o tronco de uma árvore ou umas simples calças de ganga. Os gatos arranham e fazem-nos sangrar, mesmo quando estamos a brincar com eles.

 

Os gatos têm pés de lã. Não precisam de nós e, alguns, não gostam mesmo de nós, aproveitam-se. Mas os que gostam, demonstram, com ronronares deliciosos que descansam os ouvidos de outros miados e meandros. Eles não precisam de nós, mas quando querem, fazem do nosso colo cama e partilham connosco os seus olhares felinos mais doces.

 

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