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no souvenir

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Estamos a viver acima das nossas possibilidades. E não, este texto não é sobre política

Falamos, antes, da vida do Homem na Terra. Pode parecer uma frase cliché e generalista, mas a verdade é que a humanidade já começou a pagar a fatura por estar a viver de uma forma pouco (ou nada) sustentável no planeta. Estaremos preparados para o que aí vem?

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É oficial: estamos a viver acima das nossas possibilidades. A 13 de agosto de 2015 a humanidade consumiu todos os recursos naturais que o planeta é capaz de renovar num ano, segundo a organização não-governamental Global Footprint Network (GFN).

 

É o que se resolveu chamar “o dia de sobrecarga da Terra”, que em 1970 foi assinalado a 23 de dezembro e, desde então, acontece cada vez mais cedo. Em menos de oito meses, consumimos todos os recursos naturais que o nosso planeta produz durante 12 meses.

 

Para quem considera que recursos naturais é um conceito pouco palpável, trocamos por miúdos: é tudo aquilo que ajuda a manter a vida na Terra, desde a água, o vento, passando pelo solo, até chegar ao petróleo e aos minérios. Renováveis ou não-renováveis, o homem está a consumir de forma desenfreada estes recursos e, enquanto o faz, vai cavando a sua própria sepultura.

 

Pode parecer uma frase dramática, mas já está a acontecer. Um exemplo recente: a tragédia humana e ambiental provocada pelo rompimento de duas barragens de mineração em Minas Gerais, no Brasil.

 

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A pegada (pouco) ecológica que o homem tem deixado no planeta é a causa de muitas mortes por todo o mundo. De acordo com um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS), a poluição do ar provoca cerca de oito milhões de mortes todos os anos. A OMS refere ainda que esta é a maior ameaça ambiental para a saúde. Mas existem outras ameaças, fruto das alterações climáticas, que se tornam mais frequentes ano após ano. Vários estudos têm constatado que cheias, secas, tempestades e instabilidade do tempo são influenciadas pelas alterações climáticas e tendem a agravar-se, se nada for feito.

 

O aumento da temperatura no planeta – as previsões apontam entre 1 a 6 graus até 2100 – pode também ter consequências desastrosas. Desde já, pela subida do nível do mar que, de acordo com a NASA, vai ter impactos profundos em todo o mundo até o fim deste século. Nos próximos 100 ou 200 anos é quase certo que o nível do mar suba, pelo menos, um metro, devido ao derretimento cada vez mais rápido das camadas de gelo na Gronelândia e na Antártica e ao aumento da temperatura dos oceanos. Zonas costeiras e ilhas vão desparecer, bem como grandes cidades como Tóquio e Singapura.

 

Através da medição da altura do oceano a partir do espaço, a NASA concluiu que desde 1992 os oceanos do mundo subiram uma média de oito centímetros, havendo locais que registaram um aumento de 20 centímetros devido à variação natural.

 

Em vários pontos do globo fazem-se crónicas de mortes anunciadas. Como é o caso de Kivalina, uma ilha do Alasca que vai desaparecer, engolida pelas águas, em 2025. Pequenos países também já estão a lidar com o seu desaparecimento, como é o caso de Tuvalu, Vanuatu ou Kiribati – países insulares situados no oceano Pacífico. Também o paraíso na terra que é a República das Maldivas pode se transformar em mais uma Atlântida perdida no oceano até ao fim deste século.

 

Enquanto em alguns países e territórios já se contam os dias para o fim, em outros tenta-se combater um futuro que não promete ser risonho. A Noruega é um dos países que mais tem investido em procurar respostas às alterações climáticas, através de estratégias para lidar com a subida do nível do mar e os eventos meteorológicos extremos, de forma a atenuar as mudanças do clima na agricultura e noutros setores. Em Portugal também já existe uma estratégia nacional de adaptação às alterações climáticas, além do trabalho científico e social que vai sendo desenvolvido por várias organizações e universidades.

 

Mas a nível global qual tem sido a resposta? Muitas palavras e pouca ação é o que temos recebido da comunidade internacional desde que o tema das alterações climáticas entrou para a agenda mundial. Cimeiras após cimeiras, relatórios após relatórios, voltamos a ser confrontados com previsões cada vez piores, mas a verdade é que ainda não existe uma estratégia global. Aguarda-se um novo acordo em Paris, que pode ser decisivo para conter o aquecimento global. Resta saber se, num mundo cada vez mais desigual e conflituoso, estarão os países dispostos a abdicar dos seus vários interesses em prol do bem da humanidade?

 

Basta somar tudo aquilo que temos visto e que nos tem sido dito para traçar um cenário possível do nosso planeta. Vai ser menos verde e azul, mais pobre em recursos e espécies, o clima vai ser mais instável e vamos viver a mercê de eventos meteorológicos extremos. Os métodos de produção industrial vão tornar-se insustentáveis e a água vai transformar-se num bem valioso, gerando guerras entre populações. As cidades vão ser cinzentas e poluídas e as florestas vão ser algo raro, representando muito pouco da grandeza que já tiveram em outros tempos. Vamos enfrentar uma nova crise de refugiados, os chamados refugiados do clima, que podem chegar aos 50 milhões até ao fim desta década, segundo a ONU. 

 

É este o planeta onde queremos viver? A maioria das pessoas responderá que não, mas talvez seja preciso chegar a este ponto para que a humanidade faça um “restart” na forma como tem vivido.

 

Algumas mudanças necessárias para um futuro mais animador já estão a acontecer: a agricultura biológica tem crescido, o investimento nas energias renováveis tem sido maior, estilos de vida alternativos e sustentáveis ganham mais visibilidade e mais adeptos. Na maioria das vezes, a resposta para o futuro já está a ser escrita no presente, mas nem sempre conseguimos lê-la a tempo. Até porque se isto correr mal, o Homem vai sair sempre a perder e a sua existência na Terra poderá ser tão insignificante quanto um grão de areia no meio do deserto.

 

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Imagens: NASA

Ilustração: Os Gémeos

Paris aqui tão perto

Aqui tão perto. Leio as notícias de Paris e arrepio-me. Quando os alertas dos primeiros tiros chegaram ontem, pensei que seria só o começo. E foi.

 

Um horror desta dimensão causa sempre espanto e surpresa a todos. Mas, infelizmente, era expectável que a capital francesa voltasse a ser palco de mais um massacre de inocentes. O país é um dos que mais tem levantado a voz (e as bombas) contra o Estado Islâmico na Síria, além de ser um território fértil para o recrutamento jihad.

 

Podemos e devemos responder com fraternidade, usar a nossa liberdade como bandeira, seguir de cabeça erguida e tentar não ter medo. Mas temos medo e vamos ter cada vez mais. E vamos desconfiar, julgar os outros e evitar certos locais. É isso o que "eles" querem.

 

Vamos ter de aprender a viver com o terror e perceber que já estamos em guerra. Resta saber como e quando vamos combater.

 

E, depois, quem sabe, possamos voltar a não ter medo.

E se esta gente toda tivesse ido às urnas?

Sei que já passaram alguns dias, o que no imediatismo virtual no qual vivemos é muito tempo, mas não consigo deixar de pensar nos números da abstenção nestas eleições. Eu, otimista quase inabalável, julgava que, fruto da dureza dos últimos quatro anos, os portugueses iriam alterar esta triste tendência de não exercerem o direito e o dever de votar. Quando, no domingo, fui votar e vi filas, tive um sentimento de esperança, talvez reflexo da minha vontade de que algo mudasse. Horas depois, este reflexo transformou-se em sombra, quando os números oficiais comprovaram não só a manutenção da tendência, como também o seu crescimento em relação às eleições anteriores: 43,07% dos portugueses inscritos não foram votar.

 

É um recorde de abstenção nas eleições legislativas e merecia mais destaque, análise e debate. Enquanto na arena política os partidos começam a lutar por uma solução de governo para os próximos anos, esta quase maioria silenciosa vai continuar a viver os seus dias como se nada fosse, sem pensar que o seu voto poderia ter traçado outro cenário político no país, sem pensar naquilo que o voto representa, em todos aqueles argumentos que são usados para justificar o valor do ato – porque muitos lutaram e deram a vida por ele, porque é uma forma de legitimar o nosso regime democrático e porque faz parte da vida em sociedade. Todos sabemos a lição, então porque é que tantos continuam a dar faltas quando são chamados a decidir?

 

Quando quase metade de um país não vota, algo de errado está a acontecer. As respostas são muitas, desde a falta de verdadeiros líderes, passando por uma sociedade apática e desinformada, aos muitos que deixaram de acreditar e aos que emigraram, até chegar à crise e ao desgaste político – com os seus inúmeros casos de corrupção e falcatruas – que nos últimos tempos minaram a confiança que o povo tem nesta classe.

 

Mas não posso deixar de pensar no “se”. E se esta gente toda tivesse ido às urnas?

 

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