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no souvenir

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Descortinar as inúmeras camadas de Roma

Roma. Uma palavra, quatro letras – amor ao contrário. Uma palavra pequena mas que carrega nela o peso de milénios, de uma República que se transformou em Império, que viu nascer e combateu o Cristianismo; de deuses esculpidos com feições de homens e homens talhados à escala de deuses. Roma ocupa um espaço especial no meu imaginário, plantado durante as aulas de História e alimentado com livros, filmes e séries.

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Todos os caminhos vão dar a Roma e o meu também acabou por desaguar na cidade eterna para uma visita curta, mas marcante. Não poderia ser de outra forma, Roma é uma cidade que deixa sempre marcas.

 

Chegar à noite num sítio desconhecido pode ser bom e mau. Por um lado, alimenta as expectativas para a manhã seguinte, com a luz do dia a revelar o que a noite escondeu. Mas se a noite esconde certos aspectos, acaba, por outro lado, revelando outros mais sombrios e pesados. Chegar em Roma à noite na estação Termini, a principal da cidade, é ver dezenas de sem-abrigo espalhados em cantos mais ou menos iluminados, é ser abordado por pessoas estranhas, é estar de olhos abertos para enxergar o que a noite tenta esconder. Assim, no primeiro impacto, Roma deixa de ser aquela Roma dos nossos sonhos, passando a ser uma metrópole do século XXI, com todos os problemas que esta designação traz com ela.

 

E, numa primeira camada, Roma é mesmo isso.

 

Depois de reconfortar o estômago com uma refeição daquela que é considerada uma das melhores gastronomias do mundo e de uma noite de sono, o dia seguinte leva-nos ao passado mais distante da cidade. O que ainda perdura, em forma de ruínas mais ou menos preservadas, confirma a grandiosidade da antiga capital do maior império da Antiguidade Clássica e, para a cultura ocidental, o império mais importante de sempre. Lutas na arena, tramas, jogos de poder, escravos, patrícios. Está tudo lá no que hoje são pedaços de pedras, colunas ou arcos solitários e belos.

 

Para mesclar a camada da Roma antiga com a Roma cristã, as igrejas são uma constante durante o caminho pelo centro da cidade. A rodear os fóruns imperiais, lá estão elas, com as suas cúpulas e cruxifixos. Numa convivência pacífica entre credos que provocaram, outrora, tantas guerras e perseguições. O que não é tão pacífico é caminhar pelo o que resta da Roma antiga. Somos constantemente perseguidos por guias que tentam, a todo o custo, mostrar as vantagens de se comprar uma visita muito mais cara do que o bilhete que dá acesso ao Coliseu, Fórum Romano e Monte Palatino. “No, grazie, gracias, thank you, obrigada”. Respondemos também nas tantas línguas que somos abordados e seguimos caminho, tentando fugir um pouco da Roma metrópole que tenta engolir a Roma antiga.

 

Cidade polvilhada de turistas, andarilhos que tentam a sua sorte pedindo uma moeda, vendedores ambulantes e... os locais? Vê-los nos sítios mais turísticos é difícil. Mais fácil é observá-los a passar com alguma velocidade pelas avenidas, ruas e vielas ao volante de carros ou ao guiador de scooters (são uma verdadeira praga). Vão apressados e não param nas passadeiras. Quem pára, faz cara feia.

 

Não nos aventuramos sobre rodas pelas ruas de Roma e os pés dão já os primeiros sinais de cansaço, mas há que continuar. É a pé que se conhece melhor os cantos e recantos de uma cidade e quando avistamos o Tibre, sentimo-nos mais leves e paramos para apreciar o correr forte das águas com Trastevere a convidar a um passeio na outra margem.

 

E é por lá que vamos. Depois, mais uma ponte cruzada, ainda há tempo para deambular pelo bairro judeu, com a sua bela sinagoga, e apreciar a imponência barroca da Chiesa del Gesù, a igreja-mãe dos Jesuítas. Pelo meio, passamos por antigos templos romanos que agora são um santuário para gatos, assombramo-nos com o Panteão e com a sua impressionante cúpula e, depois de saborear um gelado delicioso, descansamos na Piazza Navona. As suas três fontes são uma ótima substituição à Fonte de Trevi, que estava em obras. Em obras estava também a Escadaria de Espanha, que vimos ao longe, enquanto cruzávamos avenidas rumo a Praça do Povo, rodeada de igrejas e esculturas que retratam deuses da Roma antiga.

 

Quantos quilómetros percorremos? As dores nos pés denunciam alguns, mas isto agora pouco importa. Num dia descortinamos tantas camadas quanto às cúpulas das igrejas que salpicam o horizonte de Roma. Um museu de três mil anos a céu aberto, cidade eterna, metrópole desordenada, local de fé. Quantas expressões caracterizam Roma? Quantas cidades invisíveis convivem dentro desta urbe? As respostas ficam, quem sabe, para uma próxima visita.

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P.S. O terceiro dia em Roma foi dedicado ao Vaticano, do qual falarei numa próxima crónica. Até lá, arrivederci.

Paris é sempre uma boa ideia

Seja por conjugação dos astros, pura coincidência ou pelo interesse que tenho pelo tema das viagens, li esta semana vários artigos sobre Paris. E aí bateu aquela saudade...

 

Eu e ela já temos uma relação duradoura. E, apesar de ter sido coup de foudre, este amor, quase sempre platónico, realiza-se intensamente sempre que regresso à Cidade Luz.

 

Nunca iremos visitar Paris vezes a mais e, por isso, estou pronta para regressar, quando assim se proporcionar. Citando o cliché, Paris é sempre uma boa ideia.

 

E, agora, vou reavivar algumas memórias, pois o que trazemos na retina é sempre o melhor souvenir de uma viagem.

 

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Os textos que me deixaram com saudades estão aqui, ali e acolá.

E se esta gente toda tivesse ido às urnas?

Sei que já passaram alguns dias, o que no imediatismo virtual no qual vivemos é muito tempo, mas não consigo deixar de pensar nos números da abstenção nestas eleições. Eu, otimista quase inabalável, julgava que, fruto da dureza dos últimos quatro anos, os portugueses iriam alterar esta triste tendência de não exercerem o direito e o dever de votar. Quando, no domingo, fui votar e vi filas, tive um sentimento de esperança, talvez reflexo da minha vontade de que algo mudasse. Horas depois, este reflexo transformou-se em sombra, quando os números oficiais comprovaram não só a manutenção da tendência, como também o seu crescimento em relação às eleições anteriores: 43,07% dos portugueses inscritos não foram votar.

 

É um recorde de abstenção nas eleições legislativas e merecia mais destaque, análise e debate. Enquanto na arena política os partidos começam a lutar por uma solução de governo para os próximos anos, esta quase maioria silenciosa vai continuar a viver os seus dias como se nada fosse, sem pensar que o seu voto poderia ter traçado outro cenário político no país, sem pensar naquilo que o voto representa, em todos aqueles argumentos que são usados para justificar o valor do ato – porque muitos lutaram e deram a vida por ele, porque é uma forma de legitimar o nosso regime democrático e porque faz parte da vida em sociedade. Todos sabemos a lição, então porque é que tantos continuam a dar faltas quando são chamados a decidir?

 

Quando quase metade de um país não vota, algo de errado está a acontecer. As respostas são muitas, desde a falta de verdadeiros líderes, passando por uma sociedade apática e desinformada, aos muitos que deixaram de acreditar e aos que emigraram, até chegar à crise e ao desgaste político – com os seus inúmeros casos de corrupção e falcatruas – que nos últimos tempos minaram a confiança que o povo tem nesta classe.

 

Mas não posso deixar de pensar no “se”. E se esta gente toda tivesse ido às urnas?

 

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