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no souvenir

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A vida como ela é

Foi numa viagem de avião que tive a oportunidade de ver Boyhood. Assim, naquelas horas de espera no céu, o filme pareceu-me uma boa companhia. E foi. Gostei muito do enredo, em que não se passando muitas coisas, passa-se tanto. Vidas que se desenrolam na rotina dos dias, meses e anos.

 

Há quem não tenha gostado do filme, tenha dito que a ideia até foi boa mas que a execução ficou a desejar. Que falta ali qualquer coisa, mais ação. De facto, durante o filme ficamos à espera de que algo mais trágico aconteça, uma morte ou um acidente. Fascina-nos este lado trágico da vida. Mas, e ainda bem, a vida como ela é não é um filme, não é feita de grandes tragédias ou de explosões de felicidade. Não todos os dias.

 

São pequenas conquistas, tristezas silenciosas, angustias apertadas, alegrias passageiras, invejas corriqueiras e sonhos ensolarados que fazem a vida como ela é. Os problemas dos outros são sempre relativos para cada um de nós. Os nossos problemas são, por outro lado, os piores do mundo. O mesmo acontece com a nossa família, amigos, trabalho ou hobbies. São tudo para nós e quase nada para os outros.

 

A nossa vida tem pouco interesse, a não ser que tenhamos uma grande tragédia, uma intriga “cabeluda” ou uma vitória estupenda para contar. Contudo, nestes intervalos, vamos costurando a colcha de retalhos da nossa existência, onde cada pedacinho é importante para as nossas memórias e para as diversas relações que estabelecemos.

 

Tenho o privilégio de participar num projeto fotográfico onde tentamos mostrar retalhos de vida de pessoas do Porto. Conversar alguns minutos com desconhecidos não é fácil e nem sempre conseguimos criar uma relação de empatia imediata. Por vezes, é mais fácil tirar uma boa fotografia do que conseguir uma boa história. Mas é sempre valioso ouvir o que ilustres desconhecidos têm para nos contar. É a vida como ela é, este desinteresse tão interessante.

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Foi bonita a festa

Numa Europa desnorteada, que sofre uma crise de valores e onde faltam líderes políticos inspiradores, Paris voltou a trazer o sonho europeu às ruas este domingo. Os trágicos acontecimentos da semana anterior serviram de mote para uma verdadeira “fête de la liberté”.

 

O povo foi Charlie e mostrou, sem medo, o que une a Europa, valendo os direitos e os deveres que fazem deste continente, pelo menos de grande parte dos seus países, um caso único no nosso planeta. É uma ode à democracia e à liberdade quando milhares de pessoas usam as ruas para expressarem as suas opiniões. E não podia haver resposta mais forte aos fundamentalistas islâmicos, e a outras ditaduras por este mundo fora, do que aquela que os franceses deram nas ruas.

 

Foram 17 vidas interrompidas, 17 seres humanos únicos que deixaram de existir. Mas a melhor homenagem possível foi prestada e as suas mortes não foram em vão. Foi uma utopia em forma de manifestação. Líderes políticos unidos por uma mesma causa. Diferentes religiões, raças e gerações erguendo a mesma bandeira.

 

Neste domingo, Paris mostrou o que todos desejamos para o mundo: paz, união, tolerância, compaixão e liberdade. Sabemos que a magia do momento já se quebrou. Os nossos problemas e diferenças são mais complexos do que os nossos sonhos e desejos. Mas espero que este dia não seja esquecido e que venha a fazer parte de uma mudança que, mais cedo ou mais tarde, acabará por acontecer.

 

A história escreve-se, mais uma vez, nas ruas.

 

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Fotografia: Libération

Maurice e Patapon

Um cão e um gato, Maurice e Patapon, um bissexual anarquista e outro assexual fascista, ficaram órfãos depois do ataque bárbaro à redação do Charlie Hebdo, em Paris. Charb, o diretor do jornal, era o “dono” dos bichanos que há bem pouco tempo tinham voltado aos desenhos animados. Agora, ninguém pode dar continuidade às suas peripécias, porque ninguém terá aquele mesmo traço, perdido entre tiros.

 

Descobri as histórias de Maurice e Patapon ao navegar pela página do Charlie Hebdo no Facebook. Vi muitos cartoons, primeiras páginas que não pouparam Nicolas Sarkozy, François Hollande, Jesus Cristo, Kim Jong-un, Angela Merkel, judeus, palestinos e também Maomé e os extremistas islâmicos. Nada escapava ao radar satírico da equipa do Charlie. E existem tantas formas de tratar temas tão sérios: dos imigrantes ilegais ao ébola. Mais do que fazer rir, a sátira também faz pensar.

 

Como um raio que destrói uma árvore, o dia 7, o primeiro dia 7 de um novo ano, caiu como uma bomba na Europa. Há tantas formas de pegar no lápis, numa caneta; há tantas formas de desenhar, escrever, contar uma história. Mas para os extremistas que cometeram e ordenaram o atentado ao Charlie Hebdo só existe uma forma de luta: matar. Para estes que não merecem o nosso entendimento, só existe uma verdade e quem é contra ela não merece viver.

 

Que nunca nos esqueçamos dos cartoons publicados antes de 7 de janeiro de 2015. Que o riso seja sempre um meio para castigar os costumes, vícios e fissuras da sociedade. Que o Charlie Hebdo nunca seja reduzido ao jornal satírico francês que publicou cartoons de Maomé. Foi, e espero que continue a ser, muito mais do que isso – a partir de agora, com novos traços, novas vozes, como uma árvore que renasce mais forte depois de ter sido atingida por um raio.

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