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no souvenir

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O ponto certo

Há sempre as receitas que acompanham cada família. Das mais requintadas às mais simples, quem não se lembra de um detalhe gastronómico que faz parte da memória familiar comum?

Uma doce lembrança, ainda hoje avivada em dias chuvosos e frios, é o fudge. A minha mãe sempre fez esta lambarice para mim e o meu irmão e já a minha avó fazia para ela e para os meus tios. O fudge é um doce simples de chocolate, açúcar, leite e manteiga que faz parte da minha família há muitos anos. Sempre quando o fazemos é motivo para nos lembrarmos de histórias e memórias que enchem os nossos corações, tal como o cheiro a chocolate enche a cozinha.

Imagino a minha mãe miúda, de olhos de azeitona preta sempre atentos, a correr para a cozinha depois da empregada Cissi chamar-lhe para raspar a panela. “Todas as empregadas lá de casa aprenderam a fazer este doce mas a Cissi conseguiu apanhar o ponto ideal”, conta a minha mãe, numa das muitas lembranças que surgem na conversa durante a confecção do doce.Ou da vez que o meu irmão, também ainda miúdo, também com olhos grandes de azeitona preta, esperou por um momento de distração da minha mãe e atirou para dentro da panela um bocado de chocolate em barra. Daquela vez, o fudge saiu mesmo mal, todo empolado. Anos mais tarde o meu irmão confessou o crime.

A receita é simples mas o mesmo não se pode dizer do ponto deste doce. Minutos a mais ao lume podem fazer a diferença no resultado final: de uma tablete fina e brilhante a uma cheia de relevos e bolhas. E, prova já dada pelo meu irmão, tentar acrescentar ingredientes também pode ser fatal.

Ao saborear este pedaço doce de memória, fico a pensar que vida também é simples, difícil é conseguir o ponto certo.

 

Bom boneco

Ele até dá um bom boneco, assim empertigado e cheio de maquilhagem para falar na televisão. Para falar ao país que parou para ver um antigo líder que saiu de cena a um passo do abismo. Um país descrente e submerso, a esforçar-se para chegar à superfície e ganhar novo fôlego. Ele até falou bem, usou os seus dotes de oratória, mostrou ser o tal animal político, como foi chamado e recordado ao longo da semana.

Ali ficou o boneco a falar, cheio de ideias vazias. Não houve nada de novo, nada que já não soubéssemos. Mas quem é que estava à espera de novidade? Se calhar alguns sebastianistas julgavam que esta entrevista seria o início da salvação nacional.

A novidade não vai chegar com caras do passado. Caras gastas e desgastadas por anos de políticas falhadas, anos de polémicas e corrupção, anos a sobrecarregar os contribuintes. A novidade não vai chegar nestes bonecos que ocupam os nossos ecrãs e os nossos boletins de voto. Precisamos de caras novas mas acima de tudo de ideias novas e honestas. Só assim vai ser possível começar um novo ciclo e, quem sabe, voltar a acreditar.

 

Da importância dos dias

Esta semana tivemos vários dias para celebrar algo ou alguém. Foi o dia do pai, dia da felicidade, dia da poesia, dia da árvore e foi também o início da Primavera.

A celebração destes dias, alguns criados com mais racionalidade e justificação do que outros, sempre me passou um pouco ao lado. Mas agora, com esta montra de vaidades que é o Facebook, é impossível ficar indiferente a estas datas.

No dia do pai, ficamos a conhecer os ilustres desconhecidos pais de grande parte dos nossos amigos faceboquianos. Já no mês passado, em fevereiro, quantos murais não se encheram de declarações de amor e coraçõezinhos no dia dos namorados. E só estamos no início do ano e ainda temos muitos, e cada vez mais, dias especiais para celebrar.

No meio de tantas datas que nos chamam atenção para alguns assuntos ou simplesmente apelam ao consumo, esta semana até calhou bem. Começamos com um dia para nos lembrarmos dos nossos adorados pais ou avôs. Seguimos para a Primavera que por acaso calhou no dia da felicidade, comemorado pela primeira vez este ano. Para terminar, hoje é o dia da poesia (e o dia da árvore também). A mim, basta um dia quente de primavera, com o verde novo a tingir as árvores, e um bonito poema para ser feliz.

 

"Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é."

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

 


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