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no souvenir

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O que fica da semana (Outono, Milan Rados e Fundações)

O outono chegou, bateu à porta e entrou, assim meio sem jeito, assim meio velhaco. Preferiu dar o ar de sua graça numa noite de chuva, onde, já no conforto da cama, imaginamos um senhor Outono a chegar com um guarda-chuva de baixo do braço, um cachecol surrado ao pescoço e uma barba grisalha por fazer.

 

A mudança das estações do ano sempre me tocou desde que vivo em Portugal, e não me venham dizer que já não existem estações pois só quem viveu num país tropical sabe que elas estão bem presentes aqui. É o passar do tempo que se torna mais real, que não corre apenas nos dias e nas semanas, mas também no renascer das flores ou no amarelar das folhas.

 

Esta semana, fomos confrontados com a morte de Milan Rados, um nome que não diz nada a muitos, mas foram mais do que eu pensava, antigos alunos do curso de jornalismo da Universidade do Porto, que prestaram uma homenagem singela e sentida a este antigo Professor.

 

Milan Rados ensinou-nos a complexidade das relações internacionais e da História de uma forma simples, mas sem nunca facilitar. Se algumas datas ou nomes ouvidos nas suas aulas podem já estar apagados da minha memória, a sua simpatia e sinceridade, refletidas num olhar azul, não vão desaparecer nem depois de muitos outonos.

 

Desta semana, fica também mais uma demonstração da falta de sensibilidade que este Governo tem com a Cultura. O corte de apoios a fundações que fazem um excelente trabalho, como Serralves ou Casa da Música, e a possível extinção de outras, como a Fundação Paula Rego, é mais um desfalque numa área essencial para sermos um país melhor.

 

15 de setembro. Um dia para ir contra o previsível

Desde há algum tempo, as notícias parecem-me sempre previsíveis. Era previsível que, apesar de tanta austeridade, não íamos conseguir cumprir com as metas para o défice. Era previsível que Passos iria, com a naturalidade insensível que já nos habituou, anunciar mais medidas de austeridade. Era previsível que Gaspar lhe seguisse, com sua insensibilidade natural de quem só vê números e teorias à frente. Era previsível que Portas ficasse calado. Era mais que previsível que Cavaco se remetesse ao silêncio. Era previsível que o PS fosse contra, mas não é este “contra” politicamente correto que precisamos agora.

 

Os dias passaram, os acontecimentos seguiram-se e todas as manhãs as notícias pareciam sempre consequências umas das outras, previsíveis, um déjà vu constante.

 

Até que ontem houve uma rutura nesta previsibilidade. Milhares saíram às ruas e mostraram que também eles estão fartos das mesmas medidas e da mesma conversa. Mostraram que esta história de que é preciso o sacrifício de todos já não cola. Que, usando o cliché, há vida (e vidas) para além da austeridade.

 

Passei a semana toda a ouvir conversas previsíveis de que as manifestações não adiantam nada, que não deviam ser ao sábado, que era preciso parar o país, que a malta vai para as manifestações beber cerveja, de que não parecem manifestações a sério.

 

Quem me disse estas coisas, provavelmente, não saiu ontem à rua. Não mostrou de forma pacífica a sua insatisfação e descontentamento, quer fosse a beber uns copos, quer fosse a segurar cartazes ou bandeiras, quer fosse de máquina fotográfica ou câmara ao ombro. Quer fosse simplesmente com a sua presença, com filhos, amigos, família ou sozinhos. O importante foi estar lá e quebrar este ciclo de acontecimentos previsíveis que não nos vai levar a lado nenhum.