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no souvenir

no souvenir

Debaixo do meu guarda-chuva

São dias a preto e branco. Formas difusas, cores esbatidas, os traços finos dos galhos secos das árvores marcam um céu sem cor. São como centenas de dedos com unhas enormes que arranham o firmamento. Tentam rasgar este cenário tão pálido para ver se por trás está algo mais cinematográfico. O sol é quase uma lembrança de agosto ou uma raridade, que quando aparece leva com que todos queiram aproveitar ao máximo.

 

Não gosto da chuva, principalmente no inverno. Não me importo com dias azuis e claros, onde o frio ainda parece fazer com que tudo fique mais brilhante e branco. Não me importo com dias quentes de verão, amenos de primavera, nublados de outono. Uma chuvinha de vez em quando passa bem, faz parte e não chateia. Semanas seguidas de chuva são um castigo. Uma condição meteorológica com a qual não me consigo habituar.

 

Chuva no verão é até aceitável, mas estraga o dia de praia. A única chuva que eu gostei mesmo foi aquela da minha infância, no Brasil, que caía com tudo e nos primeiros instantes trazia com ela aquele cheiro de terra molhada. Essa chuva era boa e eu tomei muito banho de chuva quando era criança.

 

Por estes dias, temos tudo menos chuva boa. As pessoas andam de cara fechada na rua. Roupas escuras, cabelos frisados. A crise já faz parte da roupa escolhida para enfrentar mais um dia de chuva (ou será a chuva já faz parte da roupa escolhida para enfrentar mais um dia de crise) e cabe dentro do guarda-chuva, dentro dos pensamentos de quem a tem sofrido no tique-taque dos dias. A cidade anda pintada de tristeza, que escorre silenciosa nas frestas do quotidiano.

 

Vai passar. O mau tempo antes da crise. Esta ainda vai persistir como aquela chuvinha chata que parece que não molha, mas molha. Daqui a pouco, as primeiras magnólias vão me dar novos motivos para sorrir. São o prenúncio de que mais uma primavera vai voltar a colorir cada praça, rua ou vale. E com o guarda-chuva fechado dentro da mala do carro, ficam também as angustias de inverno. Até lá, é tentar andar entre os pingos da chuva.