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no souvenir

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Chegar a casa

Esforçava-se por manter os olhos abertos, mas não estava a ser fácil. Tinha se entregado ao sono em mais uma interminável viagem de comboio. Com atrasos e cansaço é possível perder a noção do tempo. O balanço dos vagões nos trilhos, o barulho constante, o burburinho das outras pessoas na carruagem e a noite lá fora eram um convite para o sono. E ela não resistia, dormia como uma pedra naquelas viagens e até sonhava de vez em quando.

Depois de passar a penúltima estação antes da sua, começava a luta contra Morpheus para sair daquele mundo em suspenso, que nos tira a vida como ela é enquanto estamos de olhos fechados. Olhava pela janela, ora via as luzes das cidades e localidades por onde passava, ora via a escuridão da noite, salpicada de pontos amarelos, ora via a ela própria, olhos vermelhos contra o reflexo no vidro.

Quando estava quase a chegar na estação final, reconhecia todos os locais que lhe eram próximos, mesmo descoloridos pela noite. Sabia de cor aquele caminho. Gostava da sensação de chegar a casa, de chegar a sítios conhecidos, estações de comboio que sabe o nome e estradas por onde já conduziu. Gostava da reta final da viagem, quando a linha do comboio fica entre a terra e o mar. Olhava para o lado oposto e só via a escuridão marítima mas sabia a beleza daquelas praias em dias de sol.

É este reconhecimento do mundo como um lugar nosso que nos mantém acordados e apegados aos sítios e às pessoas. É saber que no fim do dia, da semana ou no fim de uma viagem chegamos a casa. Se não temos ninguém para nos receber, somos sempre recebidos pelas coisas, pelos nossos objetos preferidos, os nossos recantos, livros e plantas, pelas memórias que guardamos.