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no souvenir

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Segunda-feira

O despertador tocou para mais uma segunda-feira. Saltou da cama, como sempre fazia, mas sentiu um enorme cansaço. Sentiu-se cansada da vida, da rotina, de todos os dias parecerem sempre segunda-feira. Dirigiu-se para a casa de banho para lavar a cara com água fria, como sempre fazia. Sentiu-se gasta, décadas envelhecida. Gasta dos dias, gasta da rotina, gasta de tantas segundas-feiras. Vestiu-se e calçou as botas, como sempre fazia. As mesmas botas de há quantos anos? Já nem se lembrava a última vez que tinha comprado uns sapatos novos. Sentiu que andava descalça, que aquelas botas já não protegiam, já não calçavam, já não podiam caminhar em mais uma segunda-feira.

Saiu a andar pelo passeio sujo e escuro, como sempre fazia. O sol teimava em nascer, estava frio e húmido. Descalçou as botas e deito-as no caixote de lixo onde sempre esbarrava. Se já não se sentia calçada por que andar com aquele peso nos pés. Passou pela porta do trabalho mas não entrou, continuou a caminhar. Deixou para trás o cinzento da cidade, cruzou campos, casas, estradas de terra. Chegou à praia, deserta e ainda pouco iluminada. Despiu-se. Se ninguém estava ali para ver, tanto fazia se estava vestida ou nua. Tinha um objetivo: o mar. E nele mergulhou, despida de roupas e de dias da semana, sentiu-se renascida, rejuvenescida décadas. Sentiu a água fria a revigorar-lhe a pele, os músculos e os ossos. Abriu os olhos debaixo de água e sentiu o ardor do sal. Mas quando tentou chegar à tona, já os seus pulmões também tinham sido tomados pela mesma água fria e salgada. O mar puxava-lhe para o seu chão de areia e pedras. Ela não resistiu, sentia-se bem, só via o verde turvo da água e ouvia o som brando das ondas. Os sons ficam sempre diferentes de baixo de água, pensou. E ali ficou, na segunda-feira em que deixou de existir.