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no souvenir

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15 de setembro. Um dia para ir contra o previsível

Desde há algum tempo, as notícias parecem-me sempre previsíveis. Era previsível que, apesar de tanta austeridade, não íamos conseguir cumprir com as metas para o défice. Era previsível que Passos iria, com a naturalidade insensível que já nos habituou, anunciar mais medidas de austeridade. Era previsível que Gaspar lhe seguisse, com sua insensibilidade natural de quem só vê números e teorias à frente. Era previsível que Portas ficasse calado. Era mais que previsível que Cavaco se remetesse ao silêncio. Era previsível que o PS fosse contra, mas não é este “contra” politicamente correto que precisamos agora.

 

Os dias passaram, os acontecimentos seguiram-se e todas as manhãs as notícias pareciam sempre consequências umas das outras, previsíveis, um déjà vu constante.

 

Até que ontem houve uma rutura nesta previsibilidade. Milhares saíram às ruas e mostraram que também eles estão fartos das mesmas medidas e da mesma conversa. Mostraram que esta história de que é preciso o sacrifício de todos já não cola. Que, usando o cliché, há vida (e vidas) para além da austeridade.

 

Passei a semana toda a ouvir conversas previsíveis de que as manifestações não adiantam nada, que não deviam ser ao sábado, que era preciso parar o país, que a malta vai para as manifestações beber cerveja, de que não parecem manifestações a sério.

 

Quem me disse estas coisas, provavelmente, não saiu ontem à rua. Não mostrou de forma pacífica a sua insatisfação e descontentamento, quer fosse a beber uns copos, quer fosse a segurar cartazes ou bandeiras, quer fosse de máquina fotográfica ou câmara ao ombro. Quer fosse simplesmente com a sua presença, com filhos, amigos, família ou sozinhos. O importante foi estar lá e quebrar este ciclo de acontecimentos previsíveis que não nos vai levar a lado nenhum.