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no souvenir

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Nota sentimental sobre o Rio

O trânsito é intenso, às vezes obriga a paragens repentinas, outras anda devagar. Da janela do autocarro, vejo a cidade que nunca aparece nos cartões postais, nem nas novelas. As buzinas incessantes das centenas de motos que serpenteiam freneticamente entre os veículos não me deixam pensar em muito mais. Avenida Brasil, Linha Vermelha ou Linha Amarela, tanto faz, este é o Rio de Janeiro de todos os dias, porta de entrada e saída da cidade maravilhosa, que espanta pela beleza e pelo horror.

 

Todos os anos é a mesma coisa. Fico sempre impressionada com o Rio. O verde incontrolável da cidade, o recorte das montanhas que encaixa perfeitamente no azul do mar. O charme dos bairros da zona sul, o estilo despojado dos cariocas, a animação das ruas e a diversidade de corpos, cores e culturas. Tudo isso cabe aqui.

 

O outro lado da moeda mostra uma cidade violenta e tensa. Relatos de assaltos são frenquentes. Os arrastões parecem ter regressado com força às praias. Há lixo nas ruas, há toxicodependentes e sem-abrigo a vaguear ou a dormir em esquinas e praças. As favelas, que já fazem parte da paisagem, são cidades dentro da cidade, mas não deixam de ser um reflexo fiel da falta de organização e prioridades político-sociais que pautaram a gestão da cidade nos últimos tempos (desde quando?). O trânsito é frenético, agressivo, sem regras. Ultrapassa-se por todas as faixas, buzina-se por tudo e por nada. Há sempre uma moto a tentar passar. Os carros raramente param nas passadeiras, raramente cedem passagem a outros carros.

 

Se poderia viver no Rio? Pergunto-me sempre quando cá estou. Provavelmente, se tivesse um emprego que me permitisse adaptar ao estilo de vida da cidade, cada vez mais caro, principalmente, para quem quer viver na zona sul. A minha ligação familiar com o Rio não me deixa ficar durante muito tempo longe dele. Regresso sempre, com novas reflexões sobre esta metrópole tropical. E fica sempre muito por dizer e por fazer, no meio da rotina corrida dos meus entes queridos que abraçam todos os dias as virtudes e vicissitudes do Rio. Por isso, é sempre bom regressar.

 

Naquela noite quente de verão, ainda era primavera mas com termómetros acima dos 40 graus não dá para distinguir, voltávamos para casa de táxi e o trânsito fluía como um rio. Ruas e estradas vazias, as luzes dos prédios a refletir na praia e, depois, na Lagoa. O recorte escuro das montanhas sobre o céu carregado. O silêncio possível. Pensei que gostaria de estar a conduzir também nesta situação, com o rádio ligado, ouvindo e cantando Marisa, Caetano ou, quem sabe, Chico. Pensei que um pedacinho do Rio também é meu e que, apesar do meu olhar crítico sobre a cidade, vou amá-la sempre.