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no souvenir

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O aquário

O aquário no canto da secretária era uma fuga das horas que se arrastavam até ao fim do turno. Aquele globo era um pequeno mundo à parte onde só havia água, uma planta de plástico e os dois peixinhos cor de laranja. Os peixes não tinham nome e nem significavam muito para ele. Se um morresse, podia comprar outro para o substituir. Os próprios animais não nutriam por ele nenhum sentimento. Os peixes não têm memória, pensava, e, por vezes, também desejava esta existência vazia dentro de um globo de vidro, sem memórias, sem afetos. Às vezes descurava-se e não trocava a água do aquário que ficava envolto numa mancha de algas verdes e pegajosas. Ainda assim, perdia ali alguns minutos em suspenso a observar aquele mundo onde conseguia se abstrair dos anseios que o envelheciam mais e mais, de dia para dia.

 

Na manhã em que foi despedido do seu trabalho de tantos anos, ficou sem palavras, como se estivesse a afogar-se por dentro. Não sabia que rumo daria agora à sua vida, tão acomodada à rotina dos dias sem cor. Saiu do escritório com os poucos pertences que tinha, já que nunca foi daqueles que fez do trabalho casa. Mas levou o seu aquário, agora só com um peixe. O segundo tinha morrido, dias antes de ter sido despedido.

 

Quando chegou a casa, tentou estabelecer um plano para os próximos dias: sair, procurar trabalho, telefonar para antigos conhecidos, reatar o contacto com os pais. Resolveu fazer uma grande limpeza em casa. Deitar fora roupas velhas, papéis amarelados. Memórias desgastadas. Durante as arrumações, num descuido, deixou cair o globo que se partiu em mil cacos de vidro, ficando o pobre peixinho cor de laranja a rabear no chão molhado. Apanhou-o com cuidado e colocou-o num cálice. Já era tarde de mais, o peixe não resistiu.

 

Foi a gota de água, o seu mundo em suspenso havia acabado ali, em cacos de vidro e um peixe afogado no ar. Voltou a ficar com aquela sensação de afogamento interno, tentava falar mas não conseguia, estava engasgado, as palavras não saíam. Pensou em beber um copo de água. Mas se estava a afogar-se, não valia pena estar a meter mais água para dentro. Sentou-se no sofá, cabeça entre as mãos. Olhou para baixo e viu que calcava uma fotografia antiga. Era ele, um menino sorridente que andava sempre alegre, a surpreender-se com os pequenos detalhes da vida. Sentiu saudades deste tempo, do tempo em que não havia tempo, em que não era preciso ser alguém e ter algo e viver para corresponder a expectativas e não conseguir corresponder a expectativas. Sempre os outros a tentarem colocar-nos dentro de um molde.

 

Sentiu um fio de água a escorrer até a ponta do nariz. Uma lágrima. Chorava. Chorou longa e copiosamente, como já não se lembrava de o fazer. Chorou silenciosamente. A apreciar cada lágrima, o seu sabor salgado. A sensação dos olhos molhados, pestanas encharcadas. Quando conseguiu finalmente respirar, sentiu que chegava à superfície, que até então vivia fechado dentro de um globo. Via tudo turvo, afogado em lágrimas que não tinham por onde sair. Foi à janela e respirou o ar fresco do amanhecer. Tinha uma pilha de tralha para deitar ao lixo, lá no meio, o seu antigo estojo de desenho, as aguarelas, o cavalete. Recuperou-os. Decidiu voltar ao que sempre quis ser: pintor.

 

O velho recebeu o envelope em papel pardo com alguma desconfiança. Há quantos anos já não recebia um carta do filho? Abriu. E viu uma linda aguarela de um peixe cor de laranja, com longas barbatanas que mais pareciam véus ou asas, num fundo azul bebé. Por baixo, um convite para a primeira exposição de pintura do seu filho.

 

Ele dava os últimos preparativos no salão. Certificava-se que os quadros estavam todos alinhados, que era possível ter uma visão geral das obras. Pensava que poderia ter incluído mais um ou outro quadro, mas não, estava tudo perfeito. Começaram a chegar os convidados, novos amigos, velhos conhecidos. Ele manteve-se discreto num canto do salão, junto a uma tela pintada com vários pedaços coloridos que lembravam um caleidoscópio. Alguém tocou-lhe no ombro. Era o pai e a mãe, com um ramo de flores amarelas. Abraçaram-se. Ele chorou, enquanto abraçava o pai, pintando uma aguarela de lágrimas na sua camiza cinzenta. O pai limpou-lhe as lágrimas. Tal como uma aguarela precisa de água para ganhar vida, ele precisou de lágrimas para voltar à vida.

 

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