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no souvenir

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Encontro no aeroporto

O voo havia atrasado mais de três horas. O seu laptop já estava sem bateria e tinha esquecido o kindle em casa. O iphone não apanhava wireless. Já tinha corrido todas as lojas e feito um lanche. Não havia mais nada para fazer, a não ser esperar.

 

Andou pelos corredores perto do seu portão de embarque à procura de um local para sentar com poucas pessoas à sua volta, mas era difícil pois com vários voos atrasados, o aeroporto estava cheio.

 

Desde que começara a viajar muito a trabalho, o encanto inicial de esperar para voar havia desaparecido. Começou a odiar passar horas no aeroporto, nas filas para o check-in, para o embarque, para comer e para ir ao WC. Prometia a si mesma que se fosse rica um dia, alugaria um avião privado.

 

Acabou por encontrar um banco de três lugares vazios, não viu nenhuma criança a chorar por perto e ninguém a ver vídeos ou a ouvir música sem phones. Decidiu sentar-se.

 

Os ponteiros do relógio demoravam a rodar e ainda faltavam duas horas e meia para o voo. Começou a ser embalada pela música ambiente e pelo vai e vem de pessoas e vozes. Quando começou a dormitar, foi interrompida.

 

Ele era bonito, de uma beleza discreta. Queria pedir uma informação sobre um voo, que por sinal era o dela. A coincidência levou com que se sentasse ao seu lado e começasse a perguntar informações sobre a cidade.

 

Se fosse outra pessoa, ela provavelmente teria despachado com uma resposta torta mas, quer fossem os seus olhos castanhos com pestanas longas, quer fosse a falta do que fazer, ela acabou por entrar na conversa.

 

Quando chegou o momento de entregarem o cartão de embarque, ela já tinha despejado metade da sua em vida em cima dele. Contou o sucesso que tinha alcançado em apenas dois anos naquela empresa, a pós-graduação que estava a pensar em fazer, o MBA que tinha cursado no ano passado, o seu interesse pelas novas tecnologias e o seu ódio atual por aeroportos.

 

Ele ouviu com aquele ar de bom ouvinte, de pessoa que gosta de escutar, fazendo trejeitos com a cabeça e sorrindo de forma contida. Por fim, antes de se separarem dentro do avião, ela perguntou o que ele ia fazer naquela cidade. Ele respondeu que também estava a trabalho.

 

Durante a viagem, ficou a pensar nele, em como tinha tido sorte em encontrá-lo. Sempre pensou que as “amizades” de aeroportos só duravam o tempo da viagem, mas desta vez tinha ficado encantada.

 

Quando desembarcaram, lançou o convite. Disse que estaria na cidade dois dias e que poderiam encontrar-se para um café ou um jantar. Ela conhecia um bar que era um charme, com a decoração inspirada em clássicos do cinema americano.  

 

Ele disse que não, que provavelmente não teria tempo pois precisava aproveitar estes dias ao máximo para trabalhar. Ela corou e o facto de saber que estava a corar ainda a deixou com as bochechas mais vermelhas.

 

Numa última tentativa, ela sugeriu que trocassem números de telemóvel. Ele não tinha telemóvel. Despediu-se então e virou costas, caminhando rápido para o táxi. Nunca se sentira tão humilhada. Então, como é possível não ter telemóvel? Podia ter inventado uma resposta melhor para me despachar, pensou.

 

Durante a sua estadia na cidade, as reuniões correram mal. Ela estava ácida, de mau humor. Só pensava numa forma de encontrá-lo outra vez. Seria difícil através da internet pois só sabia o seu primeiro nome. Quem sabe teria a sorte de apanhar o mesmo voo do que ele de regresso.

 

Antes de ir dormir, tentou lembrar-se de algo nele que o pudesse identificar, uma etiqueta na bagagem por exemplo. Mas não havia nada, a não ser aquela beleza discreta de olhos profundos, sorriso contido, expressão de bom ouvinte e um bloco de notas nas mãos em que rabiscava desenhos incompreensíveis de vez em quando.

 

O bloco! Ele deve ser jornalista, apostou ela. Mas um jornalista sem telemóvel? É claro que ele tem telemóvel, lembrou, aquela resposta foi para me cortar, concluiu.

 

Os dois dias passaram e ela regressou. Não o encontrou no aeroporto. Chegou ao trabalho e na semana seguinte foi despromovida. Aquelas reuniões eram decisivas e o seu mau desempenho tinha desiludido muito os seus superiores.

 

Por ter descido de posto no trabalho, deixou de fazer viagens e voltou a trabalhar na sua secretária e no seu computador. Pensava muitas vezes naquele encontro nefasto no aeroporto. Por culpa daquele “João sem telemóvel”, ela tinha voltado ao seu trabalho sedentário e sem graça.

 

Num dia chuvoso de outono, quando ia a caminho do metro, parou frente à montra de uma livraria. O título do livro chamou-lhe atenção: “Uma vida por trás de gadgets – crónicas do mundo atual”. O escritor, João Ribeiro. Ficou sem reação, não comprou o livro, não queria acreditar.

 

Quando chegou em casa, “googlou” o título e o autor do livro, encontrando uma entrevista recente com o escritor. Era ele, a foto comprovava. Na entrevista ele explicava que o livro contava estórias de encontros e desencontros que tinham como personagens principais homens e mulheres adeptos desta mão cheia de aparelhos indispensáveis na vida de hoje.

 

Continuou a pesquisar, encontrou-o nas redes sociais, descobriu o seu e-mail e o telefone da sua editora. A próxima apresentação do livro seria naquela quinta-feira num café perto de sua casa. Decidiu que não ia perder a oportunidade de acertar contas com ele. Afinal, ela não se sentia à vontade de ser tema de um livro.

 

Depois da apresentação e conversa sobre o assunto, sempre muito polémico e maniqueísta, ela esperou a sala ficar mais vazia e dirigiu-se a ele. A luz branda do local fazia com que os seus olhos ficassem ainda mais misteriosos. Ele olhou para ela e sorriu.

 

Lembra-se de mim, disse. Não, já tivemos a oportunidade de nos conhecermos, perguntou ele cordialmente. Não se lembra de um encontro no aeroporto, quando o nosso voo atrasou e acabamos por conversar um pouco, respondeu ela em tom sério.

 

O escritor explicou-lhe que no último ano tinha a passado a vida em viagens, em aeroportos, estações de comboios e autocarros, à procura de estórias para o seu mais recente livro. Por isso mesmo, era natural que não se lembrasse dela.

 

Ela tentou reavivar-lhe a memória falando um pouco sobre os temas que tinham conversado, que no fim ela tinha lhe pedido o número de telemóvel e que, para surpresa sua, ele não tinha – ou não queria dar.

 

Ah, então foste tu que me convidaste para ir a um bar com decoração de clássicos do cinema, perguntou. Sim, ela respondeu um pouco ruborizada. A explicação seguiu-se sem complicações. Na altura, ele não tinha usava telemóvel pois queria afastar-se ao máximo da matéria prima das suas estórias. Já reparou a quantidade de pessoas que estão completamente viciadas nestes aparelhos hoje em dia?

 

Ela fez que sim com a cabeça, acabando por reparar que não estava incluída neste grupo, afinal o mais importante para ele tinha sido o convite para sair. Naquela época não tinha mesmo telemóvel, mas agora tenho, afirmou. Trocaram números e conversaram pela noite dentro naquela mesa de café com luz branda. Ela levemente corada e ele com aquele ar de quem sabe ouvir.